Se o AFD é a marcação bruta, o AEJ é a jornada já calculada: totais trabalhados, horas extras, adicional noturno, ausências e banco de horas — num arquivo padronizado que a fiscalização cruza com o AFD e com o espelho de ponto. Este guia explica o que é o AEJ, o que ele substituiu, quem precisa gerar e como é a sua estrutura, registro por registro.
No controle de ponto eletrônico existem dois arquivos que vivem sendo confundidos: o AFD e o AEJ. O AFD é a marcação crua, como saiu do relógio. O AEJ — Arquivo Eletrônico de Jornada é o passo seguinte: a jornada já apurada, com os totais calculados, as horas extras, o adicional noturno, as ausências e o banco de horas. É o arquivo que traduz batidas de ponto em jornada de trabalho.
Enquanto o AFD comprova que o funcionário registrou o ponto, o AEJ mostra como essa jornada foi tratada. Por isso a fiscalização cruza os dois — mais o espelho de ponto — pra ver se tudo bate. Este guia explica o que é o AEJ, o que ele substituiu, quem precisa gerar e como é a sua estrutura, registro por registro.
O que é o AEJ (jornada apurada)
O AEJ é um arquivo de texto que consolida a jornada de trabalho de um período. Para cada empregado, ele lista o horário contratual, as marcações já tratadas (originais, incluídas, pré-assinaladas ou desconsideradas), as ausências e os movimentos de banco de horas. É a "jornada apurada" — aquilo que efetivamente vira folha de pagamento.
A diferença de propósito é o que importa: o AFD é prova (registro imutável do que aconteceu no relógio); o AEJ é apuração (o que o sistema calculou a partir daquilo).
AFD × AEJ: a diferença que confunde todo mundo
| Aspecto | AFD | AEJ |
|---|---|---|
| O que contém | Marcações brutas do REP + eventos do equipamento | Jornada apurada: horário contratual, marcações tratadas, ausências, banco de horas |
| Quem gera | O REP (o relógio) | O PTRP (o programa de tratamento) |
| Formato dos campos | Posicional (cada campo em posições fixas) | Delimitado por | (pipe) |
| Integridade | CRC-16 + hash SHA-256 | Assinatura digital CAdES (arquivo .p7s) |
| Versão do leiaute | 003 | 001 |
O que o AEJ substituiu
O AEJ é uma novidade da Portaria 671 e substituiu dois arquivos antigos da Portaria 1.510/2009:
- AFDT — Arquivo Fonte de Dados Tratado
- ACJEF — Arquivo de Controle de Jornada para Efeitos Fiscais
Quem gera o AEJ (o PTRP)
O AEJ não sai do relógio — sai do PTRP (Programa de Tratamento de Registro de Ponto), o software que recebe as marcações do REP-C, REP-A ou REP-P e apura a jornada. É esse programa que aplica hora extra, adicional noturno, tolerâncias, ausências e banco de horas, e então exporta o AEJ.
Na prática, qualquer empregador que use controle eletrônico de ponto precisa conseguir gerar o AEJ quando a fiscalização, o sindicato ou o empregado pedir. O arquivo deve estar disponível para todo o período de guarda de 5 anos após a rescisão.
As regras gerais do arquivo
- Formato texto, codificado em ASCII / ISO 8859-1.
- Cada linha é um registro e termina com os caracteres 13 e 10 (CR + LF).
- Dentro de cada registro, os campos são separados pelo delimitador
|(pipe) — exceto o último campo da linha. - Sem linhas em branco.
Os tipos de dado dos campos
| Sigla | Tipo | Formato |
|---|---|---|
| N | Numérico | só dígitos |
| A | Alfanumérico | texto |
| H | Hora | hhmm (ex.: 0800) |
| D | Data | AAAA-MM-DD |
| DH | Data e hora | AAAA-MM-DDThh:mm:00ZZZZZ com fuso |
Os tipos de registro do AEJ
Diferente do AFD (que tem tipos 1 a 9), o AEJ organiza a jornada em registros de 01 a 99:
| Tipo | O que registra |
|---|---|
| 01 | Cabeçalho — dados do empregador e período |
| 02 | REPs utilizados na apuração |
| 03 | Vínculos — os empregados (CPF e nome) |
| 04 | Horário contratual — a jornada que o empregado deveria cumprir |
| 05 | Marcações tratadas — cada batida, com sua fonte e situação |
| 06 | Matrícula no eSocial (para quem tem mais de um vínculo) |
| 07 | Ausências e banco de horas |
| 08 | Identificação do PTRP (o programa que gerou o arquivo) |
| 99 | Trailer — fecha o arquivo com a contagem de cada registro |
Os registros que fazem o AEJ ser o AEJ
Três registros carregam a "inteligência" da jornada — é o que o AFD não tem:
Tipo 04 — Horário contratual
Descreve a jornada que o empregado deveria cumprir: duração em minutos e os pares de entrada/saída (até vários por dia). Em jornada noturna, a duração já considera a hora reduzida. É contra esse horário que as marcações são comparadas pra apurar extras e faltas.
Tipo 05 — Marcações tratadas
Cada marcação da jornada, mas agora classificada. Dois campos definem tudo:
| Campo | Valores | Significado |
|---|---|---|
tpMarc | E / S / D | Entrada, Saída ou Desconsiderada |
fonteMarc | O / I / P / X / T | Original do REP, Incluída manualmente, Pré-assinalada, Exceção, ou ouTras |
05|1|2026-08-24T08:00:00-0300|1|E|1|O|ADM|05 = tipo · 1 = id do vínculo · 2026-08-24T08:00:00-0300 = data/hora · 1 = id do REP · E = entrada · 1 = 1º par entrada/saída · O = marcação original · ADM = código do horário contratual.
Tipo 07 — Ausências e banco de horas
Registra o que aconteceu fora da marcação normal, com um código de tipo:
| Código | Tipo de ausência/compensação |
|---|---|
| 1 | DSR — Descanso Semanal Remunerado |
| 2 | Falta não justificada |
| 3 | Movimento no banco de horas (crédito ou débito, em minutos) |
| 4 | Folga compensatória de feriado |
Assinatura digital e trailer
O AEJ é fechado por um registro tipo 99 (trailer), que conta quantos registros de cada tipo o arquivo tem — se a contagem não bate, o arquivo está corrompido ou foi editado.
A integridade é garantida por assinatura digital no padrão CAdES (CMS Advanced Electronic Signature), armazenada em um arquivo .p7s destacado (detached). No próprio AEJ, o campo de assinatura leva o texto literal ASSINATURA_DIGITAL_EM_ARQUIVO_P7S — a assinatura de fato viaja no arquivo .p7s que acompanha.
AFD, AEJ e espelho: a tríade que precisa bater
A fiscalização quase nunca olha um arquivo isolado — ela cruza os três. As marcações brutas do AFD têm que ser as mesmas que aparecem tratadas no AEJ; e o espelho de ponto (o documento legível que o funcionário assina) tem que refletir os totais do AEJ.
Como gerar (e o que cobrar do sistema)
Como o AEJ é resultado do tratamento, a qualidade dele depende inteiramente do software de ponto. O que você precisa garantir:
- O sistema exporta o AEJ no leiaute 001 da Portaria 671, com os campos separados por pipe e a assinatura CAdES (
.p7s). - A apuração aplica corretamente hora extra, adicional noturno (com hora reduzida), DSR, tolerâncias e banco de horas.
- Toda inclusão/desconsideração de marcação guarda o motivo (rastreabilidade).
- AFD, AEJ e espelho de ponto batem entre si — mesmos horários, mesmos totais.
- Você consegue baixar o AEJ de qualquer período em segundos, quando for pedido.
Conclusão
O AEJ é onde a jornada ganha sentido: ele pega a marcação bruta do AFD e a transforma em horas trabalhadas, extras, ausências e banco de horas — tudo num formato que a fiscalização e o eSocial entendem. É o retrato oficial de como a empresa apurou o tempo de trabalho.
Você não gera o AEJ na mão, mas a responsabilidade pelo que está nele é da empresa. Um sistema de ponto que apura certo e mantém AFD, AEJ e espelho coerentes é a diferença entre passar por uma fiscalização em minutos ou virar réu num processo. Entender o AEJ é entender onde mora o risco — e onde mora a tranquilidade.